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| Arrastão, Yole Travassos |
Jn 3:16
Lk 7:11
Mk 2:14
João 3:16
A questão da salvação e da perdição se configura unicamente na intenção com que cada um enxerga a si e aos outros no seu contexto. É triste constatar que, como aquele mal pedimos que Deus nos livre na oração do Pai Nosso, como o pai da mentira que recusa definitivamente a verdade, os religiosos acham que têm o direito inalienável à salvação. Eles acham que são suficientemente bons, eles acham que podem ter feito o suficiente para merecê-la. Esta é a situação de toda a humanidade e de todas as religiões. Estão querendo alcançar o perdão e a graça de Deus por seus méritos próprios. Eu sei que é difícil entender a capacidade de Deus em nos perdoar desse jeito.
O que fazem os anjos na parábola? A Bíblia diz que eles separam os maus dos bons. Em outras palavras, eles jogam os bons no cesto que entrará na festa, e jogam fora tudo o que pode estragar esta festa. Todas as referências bíblicas à redenção estão relacionadas a comemorações festivas. Seja um banquete, uma festa de casamento, a reconciliação entre pessoas que não se suportavam, a alegria de ter de volta uma ovelha, uma moeda ou um filho que estavam perdidos. A Bíblia diz que essa alegria repercute no céu, e não é somente por um pecador que se arrepende, mas também por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento. Há alegria no céu pela Nova Jerusalém, povoada de pecadores cuja cidadania está baseada apenas na aceitação gratuita do seu perdão. Há alegria no céu quando há partilha de pães e peixes, quando alguém anda a segunda milha, quando alguém oferece a túnica a quem lhe rouba a capa.
Mas chegamos ao final da parábola, e nele Jesus diz o seguinte: Assim será na consumação do século: sairão os anjos, e separarão os maus dentre os justos, e os lançarão na fornalha acesa; ali haverá choro e ranger de dentes. Estas são palavras duras de se ouvir, mas também são palavras que nos trazem uma verdade dupla sobre a ordem da redenção. Primeiramente temos a fornalha que representa a vontade absoluta de Deus em não permitir que nada poderá estragar a sua festa. Não haverá espaço na festa para tristeza ou lamento. Em segundo lugar temos o chorar e o ranger de dentes, que nos conferem a certeza de que a festa do Reino de Deus é a única festa que traz a verdadeira e eterna alegria.
Tudo o que está lá fora, na escuridão eterna, é apenas o lamento de quem perdeu, por sua exclusiva decisão, o seu lugar no cesto, e agora está pranteando na praia a sua indignação por não ver consumada a sua convicção de retidão própria, de ver que nada lhe valeu o tempo perdido em julgamentos e em condenações alheias. Pior ainda será ver que enquanto ele se lamenta prostitutas, publicanos e gente indesejável à religião gozam sem qualquer merecimento dessa alegria, e que gozarão eternamente do amor de Deus que foi revelado e manifesto Jesus Cristo.
Termino dizendo que você já está perdoado. Você não tem que fazer nada, absolutamente nada além de crer nisso. Aceitar que você é aceito por Deus. Você foi tragado por esta grande rede. Agora aproveite apenas do beneplácito que ela contempla. Se você se sentir inclinado a fazer parte de uma comunidade religiosa, de uma igreja, por exemplo, saiba que esta é a única função das comunidades religiosas em todo o mundo: convencer as pessoas de uma verdade que elas já desfrutam, e que ainda não tomaram consciência de que ela está irrestritamente disponível a todos.

